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Juventude idiota

Arquivado em: Sem Categoria — karlatitude at 11:52 pm on Terça-feira, Julho 22, 2008

 

Não gostaria de ser redundante e voltar a falar sobre o tema do meu último texto, entretanto, continuo me surpreendendo com a sabedoria que adquirimos como o passar dos anos, e como nos tornamos mais corajosos. Não sei se você já percebeu, caro leitor, mas os jovens são tímidos.

Quando somos jovens temos vergonha do nosso corpo, da família que temos, de falar em público então, nem se fala. A inexperiência faz com que nos fechemos em um casulo, e poucos são os que conseguem abandoná-lo a ponto de aproveitar uma juventude “sem vergonha”. Temos medo do que vão achar do nosso cabelo, roupa, tênis. E pra que ousar abrir a boca? Certamente vou falar alguma besteira. A idéia de alguém rir da gente é apavorante.

Certa vez, estava garimpando em uma livraria e me deparei com um livro cujo título era algo assim: ria de si mesmo antes que alguém ria de você. Não comprei o livro, mas talvez esse seja um bom caminho pra perder o medo, a vergonha, a timidez. Ria de si mesmo. Caiu, sorria. Falou que a capital da Argentina é Quito, ria. Qual é mesmo a capital da Argentina? Vestiu a roupa do lado avesso? Ria da sua loucura, da sua displicência, incoerência, insensatez, simplesmente sorria.

Esta semana conheci um senhor de 73 anos, advogado, investido da missão de defender um homem que havia matado o próprio tio a facadas. Árdua tarefa, não é mesmo? Não era o que parecia. Em duas horas de discurso, ele falou o que vinha a sua cabeça, enquanto o réu devia não acreditar que tudo aquilo fazia parte da sua defesa, o senhor de cabecinha branca declamou poemas, citou Fernando Pessoa, Manoel Bandeira, falou de como queria que fosse seu velório, chegou a brincar com sua própria morte. Ele não tinha medo de falar. Falou o que quis e as pessoas ao redor que se envergonhavam por ele, enquanto ele provava a gostosa sensação de rir de si mesmo.

Acabo de chegar aula de dança e enquanto dirigia de volta para casa lembrei-me de uma frase dita pelo nobre advogado. “Não é a bebida que faz o homem dançar, e sim o batido de coxa da mulher amada”. Que absurdo! Que termos! Um advogado! Um senhor de 73 anos! Juventude estúpida! Ele só queria dizer que para dançar é preciso fechar os olhos, sentir a música, o coração bater e se entregar. Para dançar é preciso estar feliz. Pra viver também.

Uma das minhas maiores frustrações foi ter deixado a dança em 1998. Como eu amava aquelas aulas de balet. Alongaaaar, postura, alongaaaar. Analisar calmamente cada movimento. Mãos, braços, pernas, tronco ereto, respiração sentida, inspira, expira. Ensaiar e ensaiar até os membros inferiores entrarem em harmonia com os superiores, até todos aqueles componentes virarem um conjunto, ensaiar até o suor escorrer, até o sorriso chegar.

O sonho de continuar dançando foi abortado pela necessidade de trabalhar. Desde então, passei a dizer que assim que Mariana nascesse eu faria sua matrícula na academia de dança, sua primeira roupinha seria uma malha e o primeiro sapato uma sapatilha. Na verdade, eu queria realizar na minha descendência um sonho que era meu. E hoje eu me pergunto. Como aos 26 anos alguém pode abrir mão de um sonho tão fácil de ser realizado? Fácil porque não se tratava de querer ser uma bailarina profissional, mas de simplesmente dedicar tempo a fechar os olhos e se deixar levar pelo ritmo.

Ritmo acelerado, frenético, louco, é assim que vivemos. Num ritmo bem diferente do que gostaríamos, fazendo coisas por obrigação e sem o menor sentido. Que tal não esperar chegar aos 73 pra ter coragem de dizer o que gostaria. Provavelmente nossos filhos serão mais felizes se não colocarmos em seus ombros o peso dos nossos sonhos não realizados. Afinal, eles terão trabalho suficiente pra realizar os próprios desejos. Não espere chegar aos 26, não espere pela segunda-feira, não espere pelos seus netos. Ainda é possível rodopiar numa pista de dança, ou você será que você já morreu?

Karla Correa

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