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Companhia indesejável

Arquivado em: Sem Categoria — karlatitude at 11:27 pm on Sexta-feira, Julho 25, 2008

 

Uma das conquistas provenientes da “maturidade” é aprender a estar sozinha e ao mesmo tempo feliz. Não que não seja bom ter alguém pra conversar, rir e compartilhar a vida, mas é preciso encontrar o lado bom de estar em sua própria companhia. Sozinha, eu decido que programa assistir, posso acampar na sala, sujar quantos copos eu quiser, espalhar roupas e sapatos por toda a casa. Sozinha, a gente pode se permitir. Por que tudo tem que estar sempre no seu devido lugar? Se sou eu que vou conviver com o caos, que haja luz quando eu decidir.

Entretanto, faz pouco, eu descobri que não estive de todo sozinha esta semana, e pude reconhecer o que minha mãe sempre cansou de falar. Meu cachorrinho é uma companhia e tanto. Ele não saiu de perto de mim um segundo. Esteve sempre pedindo um pouquinho da minha comida, dormindo enquanto eu assistia tv, mas sempre dando um jeitinho de estar virado em minha direção, pois eu poderia necessitar de algum socorro. Na hora de dormir ele se aconchegava perto dos meus pés e nem reclamava dos chutes que levara durante a noite. Para ficar feliz bastava uma voltinha no quarteirão onde ele podia evacuar e cheirar todos os postes, portões, muros, árvores e carros que estivessem no caminho. Ah! ração também não podia faltar, ele aprendeu a protestar arrastando a vasilha pela casa, acho que esse deve ser o piquete do mundo dos cachorros, uma graça. De prêmio ele ganhou um dia no salão de beleza e uma gravatinha do Piu-Piu, um charme.

Tudo corria maravilhosamente bem quando recebi uma visita inesperada e completamente indesejável. Florinda chegou sem avisar nem pedir licença, então pensei, é muita petulância! Mas imaginei que aquela seria apenas uma visita de rotina e que logo ela iria procurar o seu rumo. Um engano! Ela resolveu aparecer todos os dias e nas horas mais impróprias. Com o tempo sua presença ficava cada vez mais insuportável, comecei a perguntar a colegas o que eu deveria fazer com aquela hóspede intrusa. Foi quando eu tomei um susto, a mãe de uma amiga minha disse que o próximo passo de Florinda seria morar no vaso sanitário e na hora “H” pular na minha… daí bateu o desespero, cheguei em casa decidida a acabar com aquela fulana remanescente das pragas do Egito. Esquentei água e quando já estava decidida a acabar com a vida daquela moça ela conseguiu fugir. Ufa! Ainda bem, ela entendeu o recado e percebeu que eu não estava para brincadeiras. Mas a verdade é que Florinda passou a morar atrás do espelho e todos os dias ela devia falar, espelho, espelho meu, existe um ser mais asqueroso do que eu? A resposta eu mesma dava, NÃO!

Florinda tem olhos negros e grandes, corpo esbelto e bem definido, se fosse para Pequim disputaria a prova de salto à distância, se fosse morar num circo seria uma contorcionista. Mas nem Olimpíadas, nem Cirque du Soleil, a danada continuava ali, me afrontando todos os dias. Eu fui aprendendo a conviver, a gente se acostuma com tudo nessa vida, não é mesmo? Ela no seu quadrado e eu no meu, claro. Quanto eu entrava, ela saia, quando eu saia ela devia fazer a festa. Quando eu recebia visitas avisava: cuidado com a Florinda! Foi quando apareceu um representante do Greenpeace, ou talvez fosse um funcionário do Ibama, um guarda florestal, ou um agente protetor das pererecas indefesas, sei lá. Só sei que Florinda não resistiu aos encantos do rapaz e foi com ele. E o pior, sem se despedir, nem pedir desculpas pelo transtorno, nada! Ele a tomou nos braços e os dois se foram.

Florinda teve um final feliz e final feliz me lembra Cinderela, Encantada, Branca de Neve… contos infantis sempre têm finais felizes. A vida real é bem diferente, mas na verdades todos estamos em busca desse “e viveram felizes para sempre”, e é bom que seja assim, não podemos desistir do nosso final feliz, apesar de ficar sozinha ter o seu lado bom, o tal felizes para sempre é no plural. Eu lembro o quanto fiquei triste quando aquela bela moça comeu a maçã envenenada e agora só acordaria com o beijo do amor de sua vida, mas cara, aquela maçã seria a solução dos meus problemas. Já pensou dormir, esperar e só acordar com o beijo do verdadeiro amor? Branca de Neve não teve dúvidas, quando acordou sabia que aquele era o homem da sua vida. Na vida real a gente tenta, investe, sonha e nem sempre o final feliz chega, mas ele vai chegar. Se você não estiver esperando cavalo branco, olhos azuis, romantismo e abdômen definido, eu garanto, vai chegar! E se a dúvida surgir, liga pro Pitts e pede um milkshake sabor maça envenenada.



Karla Correa

Meus 25 anos

Arquivado em: Sem Categoria — karlatitude at 11:53 pm on Terça-feira, Julho 22, 2008

 

Existem imagens que mesmo com o passar dos anos não saem da nossa mente. Infelizmente não sei explicar porque não conseguimos lembrar de coisas significativas do nosso passado, mas outras, aparentemente sem importância, permanecem guardadas em nossa memória. Na minha infância estudei na escola Gua-ra-ra-pes, lembro-me de como foi complicado aprender a escrever esse nome, era uma ótima escola, e eu sempre fui uma excelente aluna. Estudei lá durante sete anos, vivi momentos maravilhosos, outros de muita dor.

Pular elástico na hora do intervalo, era bom. Nunca ter dinheiro para comprar o lanche e não poder participar das excursões, era péssimo. Receber elogios dos professores e o boletim da 4ª séria com nota 10 em todos os bimestres, foi formidável. Ainda teve os amigos que fiz, mas que não permaneceram… recordo-me de muitas coisas, esqueci-me de muitas outras, entretanto, uma informação eu não esqueci. Em uma das aulas, com alguma professora, em algum livro, estava escrito: a faixa etária correspondente a juventude se encerra aos 25 anos.

No auge dos meus 10 anos de idade pensei: ainda tenho muito tempo pela frente, mas no fundo sabia que minha vida só teria sentido enquanto fosse jovem. Ao me aproximar dos 25 percebi que pouca coisa iria mudar, eu já tinha tantas responsabilidades, o que poderia ficar diferente? Tinha a sensação de que sempre seria a mesma menina, muitas vezes ingênua, impulsiva, que falara sem pensar, que não se importava em falar alto, em cair no chão de tanto rir, de brincar… Finalmente cheguei aos 25 e como imaginei, nada mudou.

Agora, em meados dos 26, percebo que talvez aquele livro, talvez aquela professora, quisessem dizer que sempre chega um momento nas nossas vidas em que é necessário amadurecer, e isso pode ocorrer aos 25 ou até aos 40, 50, 60 anos, é uma questão muito pessoal. A verdade é que no decorrer do processo iremos nos deparar com situações que nos exigirão uma outra postura. Comigo aconteceu há pelo menos um mês.

Diante de uma situação de extrema pressão agi como se tivesse aqueles 10 anos de idade. Nada que pudesse surpreender, pois foi uma reação bem característica da minha pessoa, a diferença foi que dessa vez não aceitaram aquela velha desculpa: “ela é muito jovem ainda, tem muito o que aprender”. Pra falar a verdade, nem eu acreditei que eu ainda pudesse reagir tão impulsivamente a essa altura da vida. Então percebi que havia chegado a hora. Hora de parar e refletir sobre esse momento pós-juventude que acabará de entrar.

Participaram do processo pessoas, livros e situações. Eu mergulhei em busca de uma Karla pós-25, uma nova pessoa, ou seria “velha” pessoa?, enfim, precisava me reencontrar. Nessa busca aprendi coisas fantásticas. O livro “Perdas e Ganhos” me ensinou a beleza da velhice, amadurecer é muito bom e trás bem menos sofrimento. Já com “A Última Grande Lição”, aprendi que a vida é boa demais, é preciso descomplicá-la. Em “Marley y Eu”, me acabei de chorar com a história de um cãozinho que esbanjava vivacidade. “O Poder da Gratidão” não consegui terminar de ler, ele tem um perfil típico de auto-ajuda, com dicas e receitas que é um saco, mas contribuiu para eu verificar como tenho motivos para ser grata.

Busquei meus amigos, abracei, beijei e me senti amada por eles. Conheci outros lugares, pessoas diferentes, hábitos distintos dos meus… O resultado desta experiência foi a descoberta do que não consigo e nem quero ser, uma pessoa morna, “antes frio do que morno”. Quanto ao que quero me tornar, acredito que essa busca não terá fim, estamos em constante mutação, o nosso corpo muda a cada dia, e não pode ser diferente com a nossa mente. Estou ansiosa para chegar aos 30 e ver o quanto melhorei, aos 40 e ver como é lidar com a lei da gravidade, aos 50 e já está mais conformada com “a maldita”, aos 60, 70, 80 e até quando Deus me permitir, estarei viva e sorrindo.

Há traços da minha personalidade que nunca mudarão, mas sei que posso melhorar em muitos aspectos. Que tal parar de fazer interpretações das palavras e situações? Ou quem sabe parar de esperar o amor das pessoas. Que tal plantar flores, ao invés de esperar que alguém as traga? Ligar pode ser bem melhor do que esperar a chamada. Estar sozinha nem sempre é estar triste, e também pode ser uma opção. Que tal parar de esperar compreensão?

Hoje sei que tenho valores fundamentais, que não mudarão de jeito nenhum. O meu amor pelo meu Criador, a minha gratidão por tudo que Ele fez na minha vida, o meu desejo de sempre fazer a Sua vontade e o anseio de passar a minha eternidade com Ele, nunca vai passar. A minha família sempre será o meu porto seguro. Os meus amigos sempre estarão disponíveis, basta que eu ligue. O meu cachorro vai balançar o rabo cheio de alegria, sempre que eu chegar em casa. Eu sempre vou acreditar no amor, na amizade, e sempre vou adorar dar e receber carinho. Descobri que não sou mas jovem e adorei!

Karla Correa

Juventude idiota

Arquivado em: Sem Categoria — karlatitude at 11:52 pm on Terça-feira, Julho 22, 2008

 

Não gostaria de ser redundante e voltar a falar sobre o tema do meu último texto, entretanto, continuo me surpreendendo com a sabedoria que adquirimos como o passar dos anos, e como nos tornamos mais corajosos. Não sei se você já percebeu, caro leitor, mas os jovens são tímidos.

Quando somos jovens temos vergonha do nosso corpo, da família que temos, de falar em público então, nem se fala. A inexperiência faz com que nos fechemos em um casulo, e poucos são os que conseguem abandoná-lo a ponto de aproveitar uma juventude “sem vergonha”. Temos medo do que vão achar do nosso cabelo, roupa, tênis. E pra que ousar abrir a boca? Certamente vou falar alguma besteira. A idéia de alguém rir da gente é apavorante.

Certa vez, estava garimpando em uma livraria e me deparei com um livro cujo título era algo assim: ria de si mesmo antes que alguém ria de você. Não comprei o livro, mas talvez esse seja um bom caminho pra perder o medo, a vergonha, a timidez. Ria de si mesmo. Caiu, sorria. Falou que a capital da Argentina é Quito, ria. Qual é mesmo a capital da Argentina? Vestiu a roupa do lado avesso? Ria da sua loucura, da sua displicência, incoerência, insensatez, simplesmente sorria.

Esta semana conheci um senhor de 73 anos, advogado, investido da missão de defender um homem que havia matado o próprio tio a facadas. Árdua tarefa, não é mesmo? Não era o que parecia. Em duas horas de discurso, ele falou o que vinha a sua cabeça, enquanto o réu devia não acreditar que tudo aquilo fazia parte da sua defesa, o senhor de cabecinha branca declamou poemas, citou Fernando Pessoa, Manoel Bandeira, falou de como queria que fosse seu velório, chegou a brincar com sua própria morte. Ele não tinha medo de falar. Falou o que quis e as pessoas ao redor que se envergonhavam por ele, enquanto ele provava a gostosa sensação de rir de si mesmo.

Acabo de chegar aula de dança e enquanto dirigia de volta para casa lembrei-me de uma frase dita pelo nobre advogado. “Não é a bebida que faz o homem dançar, e sim o batido de coxa da mulher amada”. Que absurdo! Que termos! Um advogado! Um senhor de 73 anos! Juventude estúpida! Ele só queria dizer que para dançar é preciso fechar os olhos, sentir a música, o coração bater e se entregar. Para dançar é preciso estar feliz. Pra viver também.

Uma das minhas maiores frustrações foi ter deixado a dança em 1998. Como eu amava aquelas aulas de balet. Alongaaaar, postura, alongaaaar. Analisar calmamente cada movimento. Mãos, braços, pernas, tronco ereto, respiração sentida, inspira, expira. Ensaiar e ensaiar até os membros inferiores entrarem em harmonia com os superiores, até todos aqueles componentes virarem um conjunto, ensaiar até o suor escorrer, até o sorriso chegar.

O sonho de continuar dançando foi abortado pela necessidade de trabalhar. Desde então, passei a dizer que assim que Mariana nascesse eu faria sua matrícula na academia de dança, sua primeira roupinha seria uma malha e o primeiro sapato uma sapatilha. Na verdade, eu queria realizar na minha descendência um sonho que era meu. E hoje eu me pergunto. Como aos 26 anos alguém pode abrir mão de um sonho tão fácil de ser realizado? Fácil porque não se tratava de querer ser uma bailarina profissional, mas de simplesmente dedicar tempo a fechar os olhos e se deixar levar pelo ritmo.

Ritmo acelerado, frenético, louco, é assim que vivemos. Num ritmo bem diferente do que gostaríamos, fazendo coisas por obrigação e sem o menor sentido. Que tal não esperar chegar aos 73 pra ter coragem de dizer o que gostaria. Provavelmente nossos filhos serão mais felizes se não colocarmos em seus ombros o peso dos nossos sonhos não realizados. Afinal, eles terão trabalho suficiente pra realizar os próprios desejos. Não espere chegar aos 26, não espere pela segunda-feira, não espere pelos seus netos. Ainda é possível rodopiar numa pista de dança, ou você será que você já morreu?

Karla Correa